Pergunte a um morador de Chengdu o que a cidade mais come, e a resposta será quase sempre a mesma: hot pot (火锅, huǒguō). Um caldeirão de caldo perfumado com mala — aquele calor entorpecedor da pimenta de Sichuan e da pimenta malagueta — fica no centro da mesa, rodeado de pratos com carne de boi, tripas, cogumelos, legumes e tofu. Em Chengdu, namora-se, negocia-se, briga-se e faz as pazes em volta do hot pot. Nenhuma viagem está completa sem uma noite lenta, suada e inesquecível em volta do caldeirão.
Breve história
O hot pot de Sichuan nasceu às margens do Yangtze no final da dinastia Qing. Os barqueiros e estivadores dos cais de Chongqing e Yibin cozinhavam miudezas baratas num caldo picante para enfrentar o frio úmido da beira-rio. Em meados do século XX a tradição chegou a Chengdu, onde os locais a refinaram: menos gordura, mais especiarias aromáticas, uma gama mais ampla de ingredientes frescos. O estilo de Chengdu é hoje mais suave e complexo que o pesado estilo de Chongqing, mas compartilha a mesma alma ardente.
Como pedir como um local
Escolha primeiro o caldo. A clássica panela dividida (鸳鸯锅, yuānyāng guō) oferece um lado de óleo de pimenta vermelha e outro de caldo claro, ideal para iniciantes. Depois escolha por prato. Imperdíveis:
- 毛肚 máo dù — tripa de boi, oito segundos exatos
- 黄喉 huáng hóu — aorta de porco ou boi, textura crocante
- 鸭肠 yā cháng — intestino de pato, até enrolar
- 酥肉 sū ròu — porco frito crocante, delicioso mesmo fora da panela
- 老豆腐 lǎo dòufu — tofu firme que absorve o caldo como uma esponja
- 苕皮 sháo pí — fitas largas de batata-doce, sedosas e elásticas
- 冰粉 bīng fěn — geleia de açúcar mascavo, a sobremesa que apaga o fogo
Peca uma tigela pequena de molho de gergelim (油碟, yóu dié), feito de óleo de gergelim, alho, coentro e um toque de vinagre: ele resfria os alimentos e corta a gordura.
Informações práticas
- Endereço: redes como Shu Daxia (蜀大侠) e Da Long Yi (大龙燚) têm filiais por toda a cidade; em Yulin e na Jianshe Road há uma grande concentração de pequenos restaurantes locais.
- Transporte: metrô linha 1 até Chunxi Road, linha 3 até Gaoshengqiao, ou simplesmente caminhar por Yulin à noite.
- Horário: a maioria abre das 11h às 2h da manhã; o pico é a partir das 18h.
- Custo: cerca de ¥90–150 por pessoa numa rede média, ¥60–90 num restaurante de bairro.
- Dicas: peça wēi là (微辣, suave) na primeira vez. Cozinhe você mesmo os crus; não use seus hashis pessoais para pescar na panela. Termine com bīngfěn ou uma cerveja gelada.
Dicas para estrangeiros
Fora das grandes redes, os cardápios em inglês são raros. Aponte para fotos ou escaneie o QR code na mesa, que costuma ter um cardápio ilustrado. A sensação de formigamento nos lábios é normal: é a pimenta de Sichuan, não alergia. Não beba água, ela não adianta contra o fogo. Peça cerveja, bebida gelada de ameixa azeda (酸梅汤, suānméitāng) ou chá gelado.
Dica prática para iniciantes: peça sempre a panela dividida 鸳鸯 (yuānyāng guō) — um lado de óleo vermelho, outro de caldo claro de osso — para poder descansar o paladar entre as bocadas. Uma mesa para duas pessoas sai por volta de ¥180–240 com cerveja gelada; os pratos extras de raiz de lótus, batata e cogumelos enoki custam apenas ¥6–12 cada. Fuja das armadilhas para turistas dentro da Rua Kuanzhai e caminhe dois quarteirões ao norte pelas vielas de Yulin, onde as famílias locais fazem fila há décadas.